Bastava ela enxergá – lo pra sentir um fogo queimando em seu corpo. Quando os olhares se cruzavam na multidão, as pernas enfraqueciam, a respiração ofegava. Todas as noites ela sonhava com o guri misterioso, eles namorando, eles casando, e ele morrendo, bem velinho, ao seu lado, e sempre neste momento ela acordava apavorada, com um aperto no coração.
Como era possível sentir e pensar tanto em alguém que nunca conhecera? Que observava pelos últimos 3 anos e meio e nunca tivera coragem de se aproximar? Como poderia ser, que cada fibra em seu corpo desejavam o beijo, o toque, a companhia eterna, a ponto de tornar – se viciada naquela pessoa um tanto quanto desconhecida? O que acontecia ali, que era capaz de fazê – La perder a razão e o foco?
Quando o menino não aparecia na faculdade, era como um dia morto. Ela não falava com ninguém, não sorria, permanecia atônita. E quando ele aparecia, ela ficava radiante como os raios que irradiam no horizonte, quando o sol nasce, toda manhã. A presença dele no mesmo ambiente a fazia pensar em passar a mão pelos cabelos que pareciam tão sedosos, encostar de leve seus lábios nos lábios rosados dele, abraçá – lo tão forte, como se o mundo fosse acabar naquele momento. Mas nunca os pensamentos viravam ações.
As pessoas já começavam a notar, tarde demais para conseguirem impedir a obsessão, cedo demais para consolá – La quando o pior viesse a acontecer. E todos em volta dela estavam de mãos atadas. Ou quase.
Um dia, ou melhor, uma noite, os amigos da menina obcecada formaram um complô, decididos a terminarem com o chove não molha de tanto tempo. E conseguiram. O guri misterioso marchou em direção à menina, apresentou – se e abriu um sorriso. Que lindo sorriso, pensou a menina enquanto tentava situar – se no que estava acontecendo. Após um pouco de conversa praticamente unilateral, porque somente ele falava, enquanto ela apenas sorria envergonhada, o inesperado aconteceu! A menina teve seu corpo puxado para perto do dele, e na sequência, foi beijada com vontade, com paixão.
Após o primeiro beijo ele confessou que também a observava, e que ficava encantado com seus olhos brilhantes, seus cabelos lisos, e seu sorriso envergonhado. E admitiu querer beijá – La por muito tempo, mas lhe faltara coragem. E assim como o conto de fadas poderia ter acabado, com os dois felizes para sempre, ele acabou de um modo inesperado. O beijo foi sem graça, o cabelo dele era oleoso, e ele cheirava mal.
O conto de fadas acabou como pesadelo. Porque de tão envergonhada a ponto de não conseguir se declarar, ela também não conseguia rejeitar, levando a inúmeros beijos sem graça e uma vontade absurda de sair correndo.
Depois daquela noite, a menina aprendeu que quando se espera demais, quando se sonha demais, o resultado nunca é como o esperado, e as vezes, é melhor que os sonhos permaneçam apenas como sonhos, que nos movem e nos dominam. Porque uma das maiores qualidades do ser humano é a capacidade de sonhar.
Monday, April 06, 2009
Aquele olhar penetra a minha pele, me faz sentir como se estivesse nua, livre de tudo que me protege do mundo exterior. É um olhar que ultrapassa minha armadura de ferro, me faz perder o chão e impede o meu cérebro de raciocinar direito. Um olhar que enaltece a auto-estima, que me dá gás pra continuar vivendo, que me faz especial. Mas será que é mesmo isso? Será que é um olhar de alguém que me deseja, ou é simplesmente um olhar de quem observa as pessoas?
Saturday, January 03, 2009
Era noite de ano novo e Kitty, apelido de Maria Quitéria, não estava feliz. Não entendia o porquê de toda essa excitação pela virada de ano - para ela a troca do dia 31 de dezembro para 01 de janeiro não era diferente de qualquer outra mudança de mês – e realmente detestava ter que colocar roupa e calcinha nova além de um sorriso no rosto e fazer festa com seus pais, comendo lentilha e pulando as sete ondas na praia.
Num ímpeto de se libertar, Kitty pegou seu buggie amarelo – queimado e dirigiu rumo à parte deserta da praia, onde só havia pedras à beira do mar. Escalou – as e sentou – se na mais alta, contemplando o céu estrelado que no momento encontrava – se com a água, que sumia na escuridão. Por algum motivo, desconhecido até para os cientistas mais experientes da Nasa, a lua tinha sumido como num eclipse que já durava horas, tornando a noite mais escura do que nunca, exatamente como Kitty gostava.
Após um tempo ali, no silêncio total, olhou em seu relógio Swatch e viu que faltava um minuto para a meia noite. O tique taque do relógio ecoava na praia, praticamente obrigando Kitty a cronometrar os segundos até a tão esperada hora, que teoricamente, era capaz de mudar o mundo. Faltando cinco segundos para a meia noite ela fechou os olhos. Morria de medo de fogos de artifício, e assim, fez a contagem regressiva, para não ser pega de surpresa com o barulho.
O relógio completou seu círculo anunciando que a hora zero chegava, o céu iluminou – se com todas as cores do arco – Iris, e Kitty, ainda com os olhos fechados, sentiu lábios tocando os seus. No susto ela foi pra trás, escorregando e quase caindo de cabeça nas pedras, se não fosse por aquele braço que rapidamente a segurou e puxou – a para perto de seu corpo. Agora Kitty abria os olhos e deparava – se com um guri, um pouco mais velho que ela, de olhos azuis cristalinos, pele bronzeada e o sorriso mais branco que já vira.
- Desculpa. Mas dizem que devemos beijar alguém a meia noite de Reveillon. Eu não acredito em superstições, nem nessa data, mas resolvi pelo menos uma vez na vida tentar acreditar.
- Tudo bem. Eu também não acredito em superstições ou na data de hoje. Mas obrigada pelo beijo, foi revigorante.
O guri não identificado sorriu e sentou – se na pedra, tirou de um bolso uma carteira de cigarro, e do outro, uma garrafinha de whisky. Ofereceu a Kitty que prontamente sentou – se e aceitou a oferta. Os dois ficaram ali, fumando e conversando, até que a atração entre eles era muito forte para agüentar e eles cederam à tentação, beijando – se com vontade, como se o mundo tivesse parado de girar.
Entre beijos, conversas e cigarros Kitty perdeu a hora. Quando deu por si, estava deitada em uma pedra enquanto o sol despontava no horizonte. Olhou para os lados e nada do menino misterioso de quem nunca perguntou o nome. Resolveu ir para casa já que sabia que seus pais deveriam estar enlouquecidos à sua procura.
Durante o trajeto para casa, reviveu em sua mente todos os acontecimentos daquela noite: os beijos, as longas conversas, a sensação de segurança e felicidade. Kitty estava em estado de êxtase, mas isso logo mudou ao estacionar seu buggie na frente de casa e ver duas viaturas da polícia. Entrou em casa correndo para encontrar sua mãe aos prantos, seu pai furioso e, vários policiais a encarando.
Passada a confusão ela dirigiu – se ao quarto, onde deitada na cama voltou a seu prévio estado de êxtase. Encarava o teto pensando quem era o guri misterioso e onde estaria naquele momento. Os dias se passaram, e nenhuma notícia. Kitty não sabia onde nem como procurar. E foi numa conversa informal com o padre de sua igreja que entendeu o que acontecera na noite de ano novo: uma renovação da esperança há muito tempo perdida pela menina.
Até hoje ela não sabe se o que aconteceu foi em decorrência do Reveillon, ou se foi pura coincidência, mas Kitty agora vê o mundo, e suas tradições, com outros olhos. Olhos esperançosos, felizes, e sempre procurando por aquele alguém que um dia a fará se sentir nas nuvens de novo.
Num ímpeto de se libertar, Kitty pegou seu buggie amarelo – queimado e dirigiu rumo à parte deserta da praia, onde só havia pedras à beira do mar. Escalou – as e sentou – se na mais alta, contemplando o céu estrelado que no momento encontrava – se com a água, que sumia na escuridão. Por algum motivo, desconhecido até para os cientistas mais experientes da Nasa, a lua tinha sumido como num eclipse que já durava horas, tornando a noite mais escura do que nunca, exatamente como Kitty gostava.
Após um tempo ali, no silêncio total, olhou em seu relógio Swatch e viu que faltava um minuto para a meia noite. O tique taque do relógio ecoava na praia, praticamente obrigando Kitty a cronometrar os segundos até a tão esperada hora, que teoricamente, era capaz de mudar o mundo. Faltando cinco segundos para a meia noite ela fechou os olhos. Morria de medo de fogos de artifício, e assim, fez a contagem regressiva, para não ser pega de surpresa com o barulho.
O relógio completou seu círculo anunciando que a hora zero chegava, o céu iluminou – se com todas as cores do arco – Iris, e Kitty, ainda com os olhos fechados, sentiu lábios tocando os seus. No susto ela foi pra trás, escorregando e quase caindo de cabeça nas pedras, se não fosse por aquele braço que rapidamente a segurou e puxou – a para perto de seu corpo. Agora Kitty abria os olhos e deparava – se com um guri, um pouco mais velho que ela, de olhos azuis cristalinos, pele bronzeada e o sorriso mais branco que já vira.
- Desculpa. Mas dizem que devemos beijar alguém a meia noite de Reveillon. Eu não acredito em superstições, nem nessa data, mas resolvi pelo menos uma vez na vida tentar acreditar.
- Tudo bem. Eu também não acredito em superstições ou na data de hoje. Mas obrigada pelo beijo, foi revigorante.
O guri não identificado sorriu e sentou – se na pedra, tirou de um bolso uma carteira de cigarro, e do outro, uma garrafinha de whisky. Ofereceu a Kitty que prontamente sentou – se e aceitou a oferta. Os dois ficaram ali, fumando e conversando, até que a atração entre eles era muito forte para agüentar e eles cederam à tentação, beijando – se com vontade, como se o mundo tivesse parado de girar.
Entre beijos, conversas e cigarros Kitty perdeu a hora. Quando deu por si, estava deitada em uma pedra enquanto o sol despontava no horizonte. Olhou para os lados e nada do menino misterioso de quem nunca perguntou o nome. Resolveu ir para casa já que sabia que seus pais deveriam estar enlouquecidos à sua procura.
Durante o trajeto para casa, reviveu em sua mente todos os acontecimentos daquela noite: os beijos, as longas conversas, a sensação de segurança e felicidade. Kitty estava em estado de êxtase, mas isso logo mudou ao estacionar seu buggie na frente de casa e ver duas viaturas da polícia. Entrou em casa correndo para encontrar sua mãe aos prantos, seu pai furioso e, vários policiais a encarando.
Passada a confusão ela dirigiu – se ao quarto, onde deitada na cama voltou a seu prévio estado de êxtase. Encarava o teto pensando quem era o guri misterioso e onde estaria naquele momento. Os dias se passaram, e nenhuma notícia. Kitty não sabia onde nem como procurar. E foi numa conversa informal com o padre de sua igreja que entendeu o que acontecera na noite de ano novo: uma renovação da esperança há muito tempo perdida pela menina.
Até hoje ela não sabe se o que aconteceu foi em decorrência do Reveillon, ou se foi pura coincidência, mas Kitty agora vê o mundo, e suas tradições, com outros olhos. Olhos esperançosos, felizes, e sempre procurando por aquele alguém que um dia a fará se sentir nas nuvens de novo.
Friday, December 19, 2008
amor, ditados e clichês.
Aquela velha frase, conhecida por muitos e citada, em suas variações, por todos, “namorados vêm e vão, amigos permanecem” está sujeita a muitas interpretações, mesmo que as pessoas, em sua grande maioria, não enxergam isso. Claro que não existe uma interpretação correta que anule todas as outras, tudo depende do interpretador e do que ele pretende interpretar.
Veja bem, sempre acreditei que essa frase implicava que deveríamos sempre dar prioridade aos amigos, e não aos namorados, porque estes últimos podem nos deixar, enquanto os amigos permanecerão eternamente com a gente. Os amigos verdadeiros, claro. Mas essa interpretação, mesmo que seja a mais comum, hoje me parece um tanto radical. Digamos que eu vá seguir esta linha de pensamento, e eu tenha um namorado que não agrada meus amigos, e estes me aconselham a largá – lo, eu devo simplesmente acabar com a relação pela incerteza do tempo de permanência da pessoa em minha vida, e opinião dos meus amigos? Acho que esta atitude, além de precipitada, é o melhor exemplo do caminho aparentemente mais seguro que possamos seguir: o de se esconder atrás de desculpas com a finalidade de evitar uma possível desilusão.
Por muito tempo acreditei nesta interpretação acima, mas recentemente, passei a enxergar o infame ditado com outros olhos, mais seguros de si e corajosos. Odeio a expressão amigos verdadeiros, já utilizada acima, mas infelizmente no mundo em que vivemos hoje, somente a palavra amigo, não traz o mesmo sentido, enfim, amigos verdadeiros possuem contratos, redigidos pelo nosso sub – inconsciente, e firmado pelo mesmo. Nestes contratos, a mesma expressão utilizada em cerimônias matrimoniais “na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, até que a morte os separe”, está naquelas pequenas cláusulas, de corpo 5, das quais os mais afobados esquecem de ler, e os mais cuidadosos lêem minuciosamente. Ou seja, amigos estão ai para todas as ocasiões, inclusive as que possuem nuvens pretas pairando suas cabeças, o que me leva a interpretação a qual acredito agora, que se eu estiver em um relacionamento com uma pessoa da qual meus amigos não aprovam por acharem que irei me magoar, não devo terminá – La, se essa não for a minha vontade. É ai que se encontra o sentido de tudo, uma vez que partimos da premissa de que os amigos estarão contigo sempre, e que devemos arriscar, e perder, e se magoar, para então crescer.
Não é certo nos escondermos atrás das opiniões dos outros para não enxergarmos o possível medo que temos do desconhecido, assim como não é certo alguém utilizar – se do posto de amigo para, de certo modo, talvez não intencional, de manipular o outro. Se forem amigos mesmo, daqueles que poderíamos um dia chamar de família, darão suas opiniões e então calados ficarão, até o momento em que precisarem manifestar alegria pela felicidade ou simpatia pela dor alheia. Não é segredo algum que da prática se obtém experiência, e que amor incondicional e verídico suporta tempestades, tornados e terremotos.
Veja bem, sempre acreditei que essa frase implicava que deveríamos sempre dar prioridade aos amigos, e não aos namorados, porque estes últimos podem nos deixar, enquanto os amigos permanecerão eternamente com a gente. Os amigos verdadeiros, claro. Mas essa interpretação, mesmo que seja a mais comum, hoje me parece um tanto radical. Digamos que eu vá seguir esta linha de pensamento, e eu tenha um namorado que não agrada meus amigos, e estes me aconselham a largá – lo, eu devo simplesmente acabar com a relação pela incerteza do tempo de permanência da pessoa em minha vida, e opinião dos meus amigos? Acho que esta atitude, além de precipitada, é o melhor exemplo do caminho aparentemente mais seguro que possamos seguir: o de se esconder atrás de desculpas com a finalidade de evitar uma possível desilusão.
Por muito tempo acreditei nesta interpretação acima, mas recentemente, passei a enxergar o infame ditado com outros olhos, mais seguros de si e corajosos. Odeio a expressão amigos verdadeiros, já utilizada acima, mas infelizmente no mundo em que vivemos hoje, somente a palavra amigo, não traz o mesmo sentido, enfim, amigos verdadeiros possuem contratos, redigidos pelo nosso sub – inconsciente, e firmado pelo mesmo. Nestes contratos, a mesma expressão utilizada em cerimônias matrimoniais “na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, até que a morte os separe”, está naquelas pequenas cláusulas, de corpo 5, das quais os mais afobados esquecem de ler, e os mais cuidadosos lêem minuciosamente. Ou seja, amigos estão ai para todas as ocasiões, inclusive as que possuem nuvens pretas pairando suas cabeças, o que me leva a interpretação a qual acredito agora, que se eu estiver em um relacionamento com uma pessoa da qual meus amigos não aprovam por acharem que irei me magoar, não devo terminá – La, se essa não for a minha vontade. É ai que se encontra o sentido de tudo, uma vez que partimos da premissa de que os amigos estarão contigo sempre, e que devemos arriscar, e perder, e se magoar, para então crescer.
Não é certo nos escondermos atrás das opiniões dos outros para não enxergarmos o possível medo que temos do desconhecido, assim como não é certo alguém utilizar – se do posto de amigo para, de certo modo, talvez não intencional, de manipular o outro. Se forem amigos mesmo, daqueles que poderíamos um dia chamar de família, darão suas opiniões e então calados ficarão, até o momento em que precisarem manifestar alegria pela felicidade ou simpatia pela dor alheia. Não é segredo algum que da prática se obtém experiência, e que amor incondicional e verídico suporta tempestades, tornados e terremotos.
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